Quem está nessa faixa de idade lembra de alguns "best sellers" da madrugada de sábado da Globo. "Sessão de Gala", "Corujão 1" e "Corujão 2" eram obrigatórios para amantes do cinema em incubação, muitos deles, menores de idade. Sim, eu era uma integrante desse grupo de hábitos notívagos e ao mesmo tempo caseiros que emendava um filme no outro, durante toda a madrugada de sábado.
No tempo em que TV a cabo era somente uma realidade nos EUA, a madrugada de filmes da Globo era um oásis de prazer cinematográfico.
Como sempre gostei de ficar acordada até tarde desde a tenra idade, os horários esdrúxulos dos Corujões eram perfeitos para conhecer diretores, atores e atrizes estupendos e outros nem tanto. Muita coisa trash passava. Mas, era delicioso também!
Foi lá que eu conheci o inesquecível "Crepúsculo dos Deuses", "O Selvagem", com o ma-ra-vi-lho-so Marlon Brando, o diretor Elia Kazan, por meio de suas obras-primas "Juventude Transviada" e "Vidas Amargas", Marilyn Monroe como mulher-objeto em seus primeiros filmes, o mestre Alfred Hitchcock através de "Janela Indiscreta" e "Um corpo que cai" e tantos outros símbolos da mais pura cultura cinematográfica moderna. Mas a descoberta mais marcante foi a que fiz no filme de John Huston - "Freud - além da alma". Ali, defini a profissão que iria escolher. Naquela madrugada mágica, me vi fascinada pelo método investigativo criado por Freud para dissecar o inconsciente. Na didática obra de Huston, encontrei o meu fazer futuro e desde então, nunca houve um momento de arrependimento. Salve o cinema - aliás, o bom e velho cinema.
Obrigada aos produtores de "Sessão de Gala" e "Corujão" que optaram por apresentar filmes tão marcantes, ricos e diversos em suas programações. Uma pena que as novas gerações não tenham acesso a essa pluralidade na TV aberta dos dias atuais.
sexta-feira, 28 de março de 2014
sábado, 22 de março de 2014
Observações sobre críticas passionais de filmes
Tenho respeito por certos críticos de cinema. Suzana Schild é uma delas. Sensata, faz uma análise muito equilibrada dos filmes que vê, quase sem demonstrar passionalidades. Há outros que parecem fazer questão de "ser do contra". Quanto mais experimental a linguagem do filme, maior a chance do tal bonequinho do "Globo" aparecer pulando na cadeira. Há ainda, o que parece ser uma velada guerra entre críticos de veículos diferentes. Várias vezes comparei notas de críticos da "Veja Rio" com as dos profissionais do "Globo" e percebi pólos de análise opostos, tipo bonequinho em pé no "Globo" e duas estrelas (regular) na "Veja". Por isso, vou conferir as críticas com algumas reservas. Um pequeno aprendizado obtive: filmes avaliados em categorias extremas, o foram por que agradaram muito (ou desagradaram demasiado) a pessoa do crítico. Refletem sua identificação ou desidentificação extremas. Aí mora o perigo da excessiva intromissão do gosto de cada um.
Diante do panorama de avaliações muito conflitantes sobre a mesma obra por críticos diferentes, tomo a decisão de conferir o filme. "Bonequinhos" saltitantes podem ser perigosos quanto à palatabilidade da obra assistida, a não ser em unanimidades incontestáveis como os mais brilhantes "Almodóvar" entre outras películas.
Recentemente vi dois filmes avaliados em categorias extremas pelo "Globo": "Ninfomaníaca vol.2" (bonequinho abandonando o cinema) e "Até o fim" (bonequinho aplaudindo de pé).
Sinceramente, não vejo que tenha sido para tanto, em ambos os casos. Na pior das hipóteses, "Ninfomaníaca vol.2" é um filme de Lars Von Trier, que convenhamos domina a arte da imagem - técnicas escolhidas para filmar e direção de atores são alguns de seus méritos, por exemplo. No mais, o filme repete o formato de "Ninfomaníaca vol.1", sem tirar nem por, ainda que com algumas forçações de barra desnecessárias no roteiro. Como é que o 1 ganha boneco aplaudindo e prestando atenção e no 2 o boneco abandona o cinema?
Já "Até o fim", mostra um ator seguro - Robert Redford - interpretando um homem sozinho em apuros no mar. Sacadas bonitas de metáforas visuais da pequenez do homem no meio do mar (e no universo, é claro), e a sua obstinação até o fim. E é isso. Ao meu ver, mereceria uma categoria mais contida.
Mas, sabe-se lá o que passa em nossas cabeças quando as passionalidades são ativadas....
Diante do panorama de avaliações muito conflitantes sobre a mesma obra por críticos diferentes, tomo a decisão de conferir o filme. "Bonequinhos" saltitantes podem ser perigosos quanto à palatabilidade da obra assistida, a não ser em unanimidades incontestáveis como os mais brilhantes "Almodóvar" entre outras películas.
Recentemente vi dois filmes avaliados em categorias extremas pelo "Globo": "Ninfomaníaca vol.2" (bonequinho abandonando o cinema) e "Até o fim" (bonequinho aplaudindo de pé).
Sinceramente, não vejo que tenha sido para tanto, em ambos os casos. Na pior das hipóteses, "Ninfomaníaca vol.2" é um filme de Lars Von Trier, que convenhamos domina a arte da imagem - técnicas escolhidas para filmar e direção de atores são alguns de seus méritos, por exemplo. No mais, o filme repete o formato de "Ninfomaníaca vol.1", sem tirar nem por, ainda que com algumas forçações de barra desnecessárias no roteiro. Como é que o 1 ganha boneco aplaudindo e prestando atenção e no 2 o boneco abandona o cinema?
Já "Até o fim", mostra um ator seguro - Robert Redford - interpretando um homem sozinho em apuros no mar. Sacadas bonitas de metáforas visuais da pequenez do homem no meio do mar (e no universo, é claro), e a sua obstinação até o fim. E é isso. Ao meu ver, mereceria uma categoria mais contida.
Mas, sabe-se lá o que passa em nossas cabeças quando as passionalidades são ativadas....
terça-feira, 18 de março de 2014
Sequências inesquecíveis do cinema: Salieri descreve a música de Mozart em "Amadeus"
"Amadeus" foi um filme particularmente marcante em minha vida. Meu pai era um amante inveterado da música erudita e Mozart sempre esteve no seu "top five" de compositores. Imagine a sua expectativa quando "Amadeus" desembarcou em terras brasileiras depois de ter ganho vários Oscar. Nos anos 80, um filme chegava ao mercado brasileiro com quase um ano de atraso, portanto, uma produção aclamada e premiada era ansiosamente aguardada por quem curtia cinema.
Pois bem, a família toda foi assistir ao aguardado filme no tradicional Cine Odeon, no coração da Cinelândia. Confesso que aos treze anos de idade, não percebi todas as sutilezas psicológicas da história (ou não dei o valor merecido a elas), mas é fato que uma cena em particular me marcou, desde a primeira vez que vi "Amadeus": a descrição por Salieri da música de Mozart. O estupendo F. Murray Abraham na pele de Salieri hipnotizou o público ao demonstrar o conflito que tomava conta do personagem, ao evidenciar a sua profunda devoção à música de Mozart em contraponto à inveja raivosa e destrutiva que tomava a sua mente. Sem dúvida, um momento sublime da sétima arte.
Pois bem, a família toda foi assistir ao aguardado filme no tradicional Cine Odeon, no coração da Cinelândia. Confesso que aos treze anos de idade, não percebi todas as sutilezas psicológicas da história (ou não dei o valor merecido a elas), mas é fato que uma cena em particular me marcou, desde a primeira vez que vi "Amadeus": a descrição por Salieri da música de Mozart. O estupendo F. Murray Abraham na pele de Salieri hipnotizou o público ao demonstrar o conflito que tomava conta do personagem, ao evidenciar a sua profunda devoção à música de Mozart em contraponto à inveja raivosa e destrutiva que tomava a sua mente. Sem dúvida, um momento sublime da sétima arte.
terça-feira, 11 de março de 2014
Sequências inesquecíveis do cinema: a dança final de "Cisne Negro"
Infelizmente, não encontrei a sequência no Youtube para adicioná-la a este post, mas como "Cisne Negro" merece ser visto na íntegra, essa omissão poderá servir de estímulo para quem lê essas linhas e ainda não conferiu essa pequena obra-prima, alugá-la.
O filme reconstrói a história do balé "O Lago dos Cisnes", em uma versão moderna. As personagens principais - o cisne negro e o cisne branco - são bailarinas e disputam o papel principal do balé. Nina (Natalie Portman no papel que lhe rendeu o Oscar), encarna a personalidade do cisne branco fora dos palcos, sendo a boa moça, disposta a sacrifícios e abnegações. Já Mily, interpretada por Mila Kunis, é o protótipo do cisne negro - sem limites para alcançar o que deseja, sedutora e cínica. Nina não consegue incorporar o lado de cisne negro, fato que lhe faz perder pontos na corrida pelo lugar de protagonista no balé.
Darren Aronofosky detalha com profundidade esse conflito vivido por Nina, a angústia que a leva à cisão de sua personalidade. O diretor explora com beleza plástica singular o drama da bailarina, as suas tentativas de libertação e superação. E, o apogeu dessa metamorfose vivida por Nina é justamente a sequência final, a dança do cisne negro versus o cisne branco. Memorável.
O filme reconstrói a história do balé "O Lago dos Cisnes", em uma versão moderna. As personagens principais - o cisne negro e o cisne branco - são bailarinas e disputam o papel principal do balé. Nina (Natalie Portman no papel que lhe rendeu o Oscar), encarna a personalidade do cisne branco fora dos palcos, sendo a boa moça, disposta a sacrifícios e abnegações. Já Mily, interpretada por Mila Kunis, é o protótipo do cisne negro - sem limites para alcançar o que deseja, sedutora e cínica. Nina não consegue incorporar o lado de cisne negro, fato que lhe faz perder pontos na corrida pelo lugar de protagonista no balé.
Darren Aronofosky detalha com profundidade esse conflito vivido por Nina, a angústia que a leva à cisão de sua personalidade. O diretor explora com beleza plástica singular o drama da bailarina, as suas tentativas de libertação e superação. E, o apogeu dessa metamorfose vivida por Nina é justamente a sequência final, a dança do cisne negro versus o cisne branco. Memorável.
domingo, 9 de março de 2014
A origem da minha paixão pelo cinema
A infância é um período crucial em nossas vidas. Nossa estrada começa a ser pavimentada nessa época e os principais construtores desse caminho são nossos pais. Desde a escolha sobre em que escola devemos estudar, se devemos receber conhecimento sobre religião, entre outros aspectos, mãe e pai são fundamentais.
Meu pai sempre amou arte. Versátil professor de biologia, ele produzia quadros negros primorosos, com desenhos a giz colorido, herança dos seus tempos como aluno de belas-artes. Que espetáculo era a sua cadeia alimentar. Ninguém esquecia mais o conceito.
Ele sabia que estimular o visual era fundamental para o aprendizado. E, talvez por isso, adorasse me levar ao cinema.
Como professor, meu pai tinha horários irregulares de trabalho, e, não raro, tinha brechas à tarde. Nessas brechas, vi muitos e muitos filmes. E não tinha esse negócio de "não pode ser legendado". Desde os 7 anos e 1/2 via filmes legendados. Ah! E tinha que ser em cinemas com excelente projeção e som. Por isso, éramos frequentadores assíduos do Metro Boavista, ali no Passeio, e também do Odeon - um dos últimos representantes atuais do cinema de rua.
Uma tarde em especial me marcou: quando vimos três vezes o filme "Amadeus", de Milos Forman. Naquele tempo podíamos ficar sucessivas sessões no cinema. Me lembro perfeitamente de vários diálogos daquele filme. Olhava o meu pai durante a projeção e percebia o quanto ele ficava embevecido com todo aquele espetáculo plural que mobilizava os sentidos e o espírito.
Obrigada meu pai por todas as experiências fundamentais que me proporcionou.
Meu pai sempre amou arte. Versátil professor de biologia, ele produzia quadros negros primorosos, com desenhos a giz colorido, herança dos seus tempos como aluno de belas-artes. Que espetáculo era a sua cadeia alimentar. Ninguém esquecia mais o conceito.
Ele sabia que estimular o visual era fundamental para o aprendizado. E, talvez por isso, adorasse me levar ao cinema.
Como professor, meu pai tinha horários irregulares de trabalho, e, não raro, tinha brechas à tarde. Nessas brechas, vi muitos e muitos filmes. E não tinha esse negócio de "não pode ser legendado". Desde os 7 anos e 1/2 via filmes legendados. Ah! E tinha que ser em cinemas com excelente projeção e som. Por isso, éramos frequentadores assíduos do Metro Boavista, ali no Passeio, e também do Odeon - um dos últimos representantes atuais do cinema de rua.
Uma tarde em especial me marcou: quando vimos três vezes o filme "Amadeus", de Milos Forman. Naquele tempo podíamos ficar sucessivas sessões no cinema. Me lembro perfeitamente de vários diálogos daquele filme. Olhava o meu pai durante a projeção e percebia o quanto ele ficava embevecido com todo aquele espetáculo plural que mobilizava os sentidos e o espírito.
Obrigada meu pai por todas as experiências fundamentais que me proporcionou.
sábado, 8 de março de 2014
"Django livre"
Por que colocam polêmica em um filme que é um autêntico Tarantino, o que quer dizer: fazer uma película que é cheia de referências inteligentes ao universo cinematográfico sob o ponto de vista de um cinéfilo e ao mesmo tempo de um talentosíssimo diretor? Tarantino é o sonho de consumo de qualquer um que ame cinema e, um dia, se imaginou tendo a liberdade criativa de poder fazer um filme. Quentin Tarantino era funcionário de locadora, cinéfilo, amante de certos gêneros de filme - faroeste, dentre eles - e, sortudo, ainda foi aquinhoado de talento e personalidade marcantes. Nóss só temos a desfrutar. Agora vem uma discussão se o filme é racista, se a Ku Klux Kan existia à época, blá, blá, blá.....se isso é tão importante para você, provavelmente você não é um amante visceral de cinema e do que cada diretor brilhante como Tarantino pode fazer com uma história fantasiosa, com certas referências de realidade, mas autoral e tão legítima quanto qualquer outra criada. Isso vale para Van Gogh e seu traço criticado e que revolucionou a pintura, Niemeyer, Mozart - considerado louco por fazer óperas em alemão, etc. Não comparo Tarantino a eles, apenas peço respeito à liberdade artística. Vejam Django pelos aspectos memoráveis que ele nos faz experimentar: as atuações MAGISTRAIS de Christoph Waltz, Leonardo Di Caprio e Samuel L. Jackson, os deliciosos diálogos e climas psicológicos que esse diretor sabe criar como ninguém, a linda direção de arte e toda esse clima de homenagem à sétima arte que um cinéfilo/cineasta da estirpe de Tarantino sabe deixar impregnado em nós como ninguém!
"Invocação do mal"
Após muitos anos sem me assustar com filmes de terror, me deparo com esse exemplar espetacular do gênero. O terror é construído na estrutura do filme, tal como vemos em o "Iluminado" de Kubrick. Os sustos não são gratuitos e esse bordão "baseado em uma história real", é explorado com competência inquestionável. Para os amantes do bom cinema, ainda que não se identifiquem com esse gênero.
Sequências inesquecíveis do cinema: abertura de "Dirty Dancing - ritmo quente"
Alguns dos que verão essa sequência, curtiram MUITO o filme Dirty Dancing (inclusive eu). Não é uma obra cinematográfica impecável, mas virou cult pelos números de dança, pela homenagem ao soul em sua trilha sonora maravilhosa e pela incrível sensualidade dos primeiros minutos do filme. "Be my Baby" das Ronettes - clássico produzido por Phil Spector em plásticas imagens em preto e branco. Inesquecível!
"Rush - no limite da emoção"
Muitos dos que lerem essas linhas têm pelo menos um registro na memória das corridas de Fórmula 1 a partir de meados dos anos 70. Nessa época, a prática era kamikaze e a probabilidade de acontecer um acidente grave, era nada mais nada menos que 20% ! Até hoje, tenho o registro na memória das consequências do horrível acidente que Niki Lauda sofreu. O filme "Rush", mostra com extremo realismo e inquestionável competência esse cenário, produzindo cenas inacreditáveis daquelas corridas. O maior feito, no entanto, é o detalhismo em traçar o perfil dos rivais Niki Lauda e James Hunt. Ambos ambiciosos e querendo provar muitas coisas para os outros e para si, suas motivações para vencer se constroem de formas distintas: Lauda é focado e frio. Hunt é passional e destemido. Ambos tiveram o lugar ao sol que fizeram por merecer. Eletrizante!
Para a sua dvdteca: "Sideways: entre umas e outras"
Um delicioso filme cujo o pano do fundo é o mundo vinho mas as situações insólitas do relacionamento humano é que são as protagonistas. Cerca de duas sequências hilariantes e inesquecíveis já valem o aluguel. Não bastasse isso, diálogos inteligentíssimos e umas aulinhas sobre vinhos da California vêm como bônus.
"Gravidade"
Esqueça tudo o que você já viu até hoje de filmes 3D. Alfonso Cuarón explorou com inteligência inédita esse recurso do cinema. A história da Dra Stone, uma especialista que é enviada ao espaço apenas para resolver um problema técnico, mas nada sabe sobre sobreviver por si só nesse ambiente, é uma metáfora perfeita sobre o quão frágeis e sozinhos são os seres humanos - no meio da multidão ou jogados no espaço. Sandra Bullock e George Clooney encarnam seus personagens com perfeição angustiante, sentimento que o filme é feliz em transmitir. E, de quebra, cumpre a função que as plateias americanas adoram: divertir.
"Blue Jasmine"
Além de um roteiro impecável e da costumeira competência na direção, Woody Allen - mais uma vez - presenteia uma atriz com um papel que pode lhe render o Oscar, o que de fato aconteceu, quando da publicação deste post. A Jasmine de Cate Blanchet é perfeita em sua loucura e ansiedade. Nesse papel, Cate aproveitou para ostentar todo o seu talento em um papel que requer qualidades dramáticas e cômicas em grande intensidade. E ela dá um show como a mulher que vive um conflito constante entre desfrutar do status de dondoca ou realizar-se como pessoa, aventurando-se em seus próprios sonhos.
"Cine Holliúdy"
É muito bom ver o cinema brasileiro com propostas tão inventivas quanto essa doce e espirituosa homenagem à sétima arte. Com um elenco entrosadíssimo, esse filme, todo falado em "cearês", é uma deliciosa comédia ingênua sobre a invasão da televisão nas cidades do interior do Brasil, nos idos dos anos 70. Desde já, sem qualquer pretensão, o nosso "Cinema Paradiso" tupiniquim.
"Azul é a cor mais quente"
"Ela vai"
Representante do cinema contemporâneo francês, essa comédia dramática nos envolve pela simples trama que oferece: uma senhora de meia idade, sufocada pela vida medíocre que leva, resolve dar um tempo "comprando cigarros" - literalmente. E assim, ela vai, sob o pretexto do vício, de cidade em cidade, easy rider, fugindo da desilusão na qual sua vida se transformou. Catherine Deneuve, elegante, linda e atriz de primeira, do alto dos 70 anos, desenha uma Bettie oprimida e depois esperançosa ao fazer par com o neto que mal conhecia. Mais uma história de celebração à vida, como só os franceses e italianos sabem filmar.
Sequências inesquecíveis do cinema: Tom Hanks e Denzel Washington em Philadelphia
Sobre as relações entre o cinema e a psicologia
Cinema e psicologia têm tudo a ver. A cada vez que saio de um filme que me faz refletir ou simplesmente incita emoções diversas, confirmo o poder que o cinema pode ter sobre o nosso pensamento crítico. Até quando procuramos um filme "pipoca", para puro entretenimento, estamos depositando naquelas duas horas, uma possibilidade de alívio para a realidade (muitas vezes nada agradável), um caminho para voltar à infância e aos sonhos, tantas vezes deixados de lado, pela concretude com que levamos nossas existências. Nesse espaço idealizado, subverte-se a ordem dos pensamentos, o verbo, a leitura, ousa-se abordar o proibido, o tabu. Esse espaço é sagrado e não deve haver nenhuma polêmica que conteste a liberdade de expressão de um diretor de cinema, pois, a despeito de nossos gostos e preferências, houve uma tentativa legítima de comunicar algo, que pode não atingir a mim, mas pode atingir a você. A terapia também promove esse exercício, ainda que por outras vias, às vezes mais dolorosas, mas consonantes com o ritmo e a história de cada um e de forma sempre libertadora. É por isso que amo essas duas vertentes da minha vida - psicologia e cinema.
"Nebraska"
Tacada de mestre do diretor Alexander Payne ter escolhido filmar em preto e branco esse longa. O meio-oeste americano com suas paisagens desoladoras e gigantescas foi perfeitamente retratado. Nebraska é de uma delicadeza só. O personagem principal, interpretado por Bruce Dern - soberbo - é de poucas palavras e uma simples obstinação na vida: buscar um suposto prêmio de loteria o qual ele pensa ter ganho. Nessa aventura, seu filho caçula o acompanha e, obviamente o que vemos são encontros, desencontros, desilusões e tantas outras sutilezas da alma humana. Antológicas as cenas da típica família caipira americana reunida na sala de televisão, hipnotizados pelo aparelho e respondendo uns aos outros por meio de monossílabos. Mais uma deliciosa noite de cinema para a minha coleção.
"Clube de compras Dallas"
O enredo é simples: Ron é um texano-machista-racista-homofóbico-promíscuo que nos idos de 1985 acreditava que o HIV era uma exclusividade dos gays. Nem é preciso dizer que Ron é contaminado pelo HIV e começa a passar "o pão que o diabo amassou" sofrendo preconceitos e buscando desesperadamente um tratamento que o salvasse. É aí que ele cria o tal clube de compras que vendia um coquetel primitivo cujos resultados de sobrevida eram superiores aos do AZT, primeira droga antiviral utilizada no tratamento da doença e que desencadeava efeitos colaterais nefastos. Mas, o que chama a atenção no filme não é o enredo, bem contado, mas sem grandes inovações na direção de Jean-Marc Vallée; e sim o desempenho fenomenal de Matthew McConaughey na pele de Ron ( o ator emagreceu nada menos que 25 kg!) e de Jared Leto, que interpreta o travesti Rayon, sócio de Ron no clube de compras. O que se vê é o mais genuíno trabalho de imersão para a construção desses personagens, a priori, caricaturais, mas possuidores de complexidades únicas. Vai ser difícil tirar o Oscar desses dois atores...
"Robocop"
Ao meu ver, José Padilha conseguiu uma proeza: em sua estreia em Hollywood, ele consegue dirigir um longa que possui todas as características de um legítimo blockbuster de ação à moda americana e também àquelas que o consagraram em "Tropa de Elite 1 e 2": a câmera nervosa e a montagem primorosa. O roteiro, não traz muitas novidades à versão original de 1987, dirigida por Paul Verhoven, mas agrega um novo olhar ao perfil psicológico de Alex Murphy, aquele que mostra um homem que recobra a sua afetividade e motivação a despeito de todas as tentativas do sistema em robotizá-lo e coisificá-lo como uma máquina de alto desempenho. E, cá entre nós: dá um orgulho danado ver um filme com orçamento de 100 milhões dirigido por um brasileiro de forma competente e peculiar (dentro do que Hollywood permite de inovação aos seus talentos importados). Confiram.
"Trapaça"
"Então"(como os paulistas adoram começar as frases): filme visto essa semana - A Trapaça. O campeão de indicações ao Oscar é bem legalzinho como diversão e tem uma edição transadísisma, o que imprime um ritmo esperto às situações. A trilha sonora também cumpre o papel de ser um forte ponto de apoio no filme, explicando um pouco o temperamento de cada personagem. Atuações competentes. E só, ao meu ver. Me pareceu que houve uma "encheção de linguiça" focando nas ligações afetivas que ocorrem no filme, como se a história fosse simples - e é - e o diretor houvesse optado por florear o roteiro. Anyway, vale à pena ser visto sim, mas, convenhamos; campeão de indicações é fortíssimo...
"12 anos de escravidão"
Hesitei em escrever essa resenha, pois o filme me trouxe várias emoções pungentes e, assim, achei por bem deixar passar um tempo para escrever de forma mais equilibrada e imparcial.
A expressão que achei mais adequada para descrever meu estado de espírito durante todo o filme foi "nó na garganta". A história é simples, baseada em eventos reais contados em um livro de 1853, escrito pelo protagonista da trama. Solomon Northup é um homem negro que vive em liberdade com a sua família em Saratoga, Nova York. Ele era violinista, sabia ler e escrever e possuía um nível cultural elevado. Sua família vivia em harmonia com as outras famílias brancas da região e aparentemente eram tratados com respeito e igualdade. Pois bem: eis que um belo dia, Northup é convidado para tocar em turnê, proposta feita por dois sequestradores que se passavam por artistas. Solomon viaja, é dopado, vendido como escravo e enviado para o sul dos EUA. O filme inicia provocando assombro no espectador, e a partir daquele momento, o que se vê é uma luta interna diária do protagonista, ora quando por instinto de sobrevivência se vê subserviente ao extremo, ora quando explode em ódio por ter que esquecer seu passado, sua profissão e até sua família. Chiwetel Ejiofor é o ator que interpreta Solomon Northup. Poucas vezes presenciei em um ator relativamente desconhecido uma segurança e domínio de cena desconcertantes. Solomon é herói mas é homem, é egoísta mas também é misericordioso. Divino e mortal.
O diretor, Steve McQueen, domina o espectador todo o tempo, fazendo metáforas entre o som tenebroso das barcas do Mississipi e o medo que assola todos aqueles homens e mulheres. Estão lá também o lamento em forma de canto que virou blues, e a linda música negra. Preparem seus corações e suas mentes. Recordem que qualquer ato de inferiorização do homem pelo homem é abominável e injustificável. É isso o que - além dos inúmeros predicados técnicos - esse filme me fez sentir, tal como um nó na garganta.
"O Lobo de Wall Street"
Esse ultra polêmico filme de Martin Scorsese, vem arrancando comentários opostos por onde passa. Ora acusado de apologia aos excessos, ora visto como crítica à ganância, "O Lobo de Wall Street" possui características do mais legítimo Scorsese - a lente de aumento sobre o distorcido no ser humano, aquilo que é nada edificante e que todos nós possuímos, ainda que saibamos (a maioria), como controlar esse lado obscuro. Quem acompanha a obra desse incrível diretor, percebe a sua "tara" por desvendar o psicopata que pode residir em qualquer pessoa ou grupo social. É só lembrar de "Taxi Driver" e "Casino". Algumas pessoas de moral cristã mais arraigada podem se chocar com essa abordagem escancarada do personagem Jordan Belfort, um corretor da bolsa que venceu com métodos nada ortodoxos. Todavia, se nos concentrarmos no fato de que tudo o que é mostrado é a mais pura verdade (Jordan existe e o filme é baseado em sua autobiografia), tomaremos a obra como ponto de reflexão sobre os limites (ou a falta deles) no ser humano. E, ainda que muitas vezes cômico, pode tomar contornos trágicos e patéticos. Ah! Leonardo de Caprio entrou, definitivamente, para a galeria dos grandes atores americanos. Esse filme não deixa qualquer dúvida quanto à sua competência dramática.
"Uma dama em Paris"
Finalmente, posso deixar uma dica de cinema para vocês! Após várias semanas assistindo filmes de mornos a decepcionantes, me reencontro com o meu bom e velho cinema: aquele que constrói personagens intensos com os quais nos relacionamos e pelos quais enxergamos seus mundos singulares. "Uma dama em Paris" é simplesmente isso. Viver em Paris sob a ótica de duas mulheres solitárias que têm os seus caminhos cruzados. Para uma, Paris significa a possibilidade de uma vida nova, um recomeço. Para a outra, significa a solidão de envelhecer após uma vida intensa de amores e projeção social. Jeanne Moreau, a Fernanda Montenegro francesa, arrebata corações com a sua interpretação.
"Somos tão jovens"
"Somos tão jovens". Cinebiografia de Renato Russo adolescente, dá uma nostalgia danada! Em um tempo que as distrações eram poucas, a amizade tinha um peso grande e com ela construíamos a noção de grupo, pertencimento, legião. Liamos mais, ouvíamos melhor tudo ao nosso redor, sempre ávidos por algo novo, transformador. Agora que tudo nos é dado fácil, por onde anda a inspiração?
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